Estamos em tempo de grandes mudanças. Chegamos ao final de um ciclo, de um tempo, de um modelo social que durou aproximadamente vinte anos, numa aparente prosperidade, mas que não passou de uma mera ilusão.
Esta crise que atravessamos é profundamente complexa, deriva de problemas económicos, sociais e financeiros. A Europa considerada outrora um modelo de desenvolvimento é agora posta em causa.
Não podemos no entanto esquecer as nossas responsabilidades individuais e colectivas, e considerar que de alguma forma se viveu nos últimos anos de uma forma leviana. Criou-se a ideia errada de que se podia ter tudo, mesmo que não se tivesse possibilidade económica para a adquirir um bem ou serviço, fomentado por regimes de crédito financeiro de médio e longo prazo, utilizados para fins mais diversos como férias, casamentos, pessoais, electrodomésticos, entre outros.
Apesar de no caso particular do crédito à habitação, e face à inexistência de um mercado de arrendamento, a compra de uma casa seria uma inevitabilidade. No entanto não se ponderou a aquisição com base na essencial, bem com nos prazos de pagamento, que em muitos casos poderiam chegar aos 40 anos. Mas tudo foi possível, e o pagamento seria sempre realizado em "suaves prestações".
Mas o que mais me impressionou, foi a falta de visão de toda uma sociedade em entender que, nem que fosse através das lições de história, que existem ciclos de maior prosperidade, com fases de maior depressão.
Agora todos falamos em poupança, com orçamentos realizados ao cêntimo, no entanto há uns anos atrás falar destes assuntos era quase uma heresia. Para quê poupar? Se a taxa de juro era tão baixa, a tentação do consumo exacerbado e do acesso ao crédito era por demais evidente, era a ideia dominante durante a última década.
Seria sempre possível conjugar de uma forma equilibrada um conceito de poupança e de consumo. A educação financeira das famílias na maioria dos casos nunca existiu. Começam-se agora a dar os primeiros passos nesse sentido, mas em muitos casos já é tarde demais, pois muitas famílias entraram já em insolvência e outras para lá caminham, devido ao aumento do desemprego e à diminuição dos apoios do estado.
É fundamental educar financeiramente as novas gerações, com princípios básicos de consumo e poupança. Apesar de considerar que irá ser muito difícil, pois muitos pais contribuiriam para que os filhos vivessem num mundo irreal, mas agora chegamos ao final de um ciclo. Temos de nos reinventar, pois é possível viver com menos consumo.
Ao longo dos anos tornamo-nos passivos, alheados das decisões que se tomam. Temos de ser mais interventivos, ter mais iniciativa, mais empreendedores, pois o nosso futuro cada vez mais dependerá das nossas decisões e atitudes na vida. O pai-estado que durante tantos anos consumiu recursos, alimentou clientelas políticas e esgotou as nossas capacidades de decisão irá terminar. A capacidade tributária para alimentar um "monstro" que consome mais de 50% do PIB em ordenados está no limite.
O nosso país tem mais de 800 anos de história, não será com esta crise que iremos terminar como nação, mas considero que esta fase irá ser bastante dura e prolongada no tempo, mas será um momento de viragem para daqui a 10 anos conhecermos um país literalmente diferente daquele que é hoje.
BOAS FESTAS!
José Carlos Ramos escreve neste espaço
semestralmente.
josecarlos@algodres.com
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